terça-feira, 6 de agosto de 2013

Alexander Supertramp, um mochileiro contra o mundo

Christopher McCandless, (Alexander Supertramp), (1968 - 1992), Mochileiro Americano
Apesar da ingenuidade de Christopher McCandless,  sua história é um profundo reflexo de nosso tempo. É a história de um jovem inteligente e sensível que, como quase todos os jovens de hoje, era impelido a buscar o sucesso financeiro, o prestígio e a aparência. O movimento contemporâneo de transformar nossos jovens em “produtos de sucesso” parece não medir consequências. Tudo é válido para que nos tornemos máquinas eficientes.
Christopher deu a todos o que eles queriam,  formou-se com louvor em prestigiada universidade americana. Depois disso, sem avisar a ninguém, desapareceu.  Saiu vagando pelas estradas dos EUA sobrevivendo de pequenos serviços, lendo livros e fazendo várias amizades graças a sua enorme simpatia. Seu desprezo pelo lógica do consumo excessivo era sua principal motivação, ele não queria fazer parte disso.
Dirigiu-se aos confins do Alasca onde, depois de vários meses vivendo em um ônibus abandonado, morreu de fome devido a erros de planejamento. Seu pensamento final estava escrito em um caderno, encontrado ao lado de seu corpo. “A felicidade só é real quando compartilhada”. No final das contas, era apenas isso que ele buscava: compartilhar sua alegria, sua juventude e seu vigor. A vida é um milagre grande demais para ser desperdiçado com aparências, futilidades e coisas sem sentido, assim pensava Christopher McCandless, que em suas viagens assumiu o codinome de mochileiro “Alexander Supertramp”.
O jornalista Jon Krakauer se interessou pela história de McCandless e resolveu investigar os lugares por onde ele passou, conhecendo as pessoas com quem ele conviveu, que lhe deram abrigo, serviços e principalmente amizade.  Desta pesquisa nasceu o livro Into The Wild, que se tornou umbestseller e estimulou um debate acalorado sobre a vida de McCandless. Enquanto uns concordam que ele era apenas um jovem ingênuo e irresponsável, outros alertam para o protesto que essa aventura representa.
O fim trágico dessa aventura é culpa de todos nós, que aceitamos imposições fúteis sem questioná-las e pressionamos nossos jovens a fazerem o mesmo. Sua  mensagem final é um aviso de alerta para uma sociedade adoecida pela superficialidade.
A aventura de Christopher McCandless inspirou o filme “Into The Wild”.

-Alfredo Carneiro-

Epicuro: A filosofia do prazer

Epicuro, filósofo grego, nietzsche, atenas, filosofia antiga, grécia.
Epicuro desenvolveu uma filosofia baseada no prazer, que é frequentemente confundida com uma busca de prazer desenfrado. A verdade era que sua filosofia pregava a sobriedade, a disciplina, a gentileza e a apreciação dos pequenos e belos momentos da vida.
Epicuro de Samos (341 – 270 a.C) desenvolveu uma belíssima filosofia do prazer. No entanto,  o prazer para Epicuro era o supremo bem a ser a cultivado com moderação e sabedoria, pois nem todo prazer é digno ser ser desejado, como aqueles que depois causam dor e sofrimento.  A privação e a disciplina são coisas valorizadas em sua filosofia, pois proporcionam o prazer de apreciar as coisas simples, belas e suaves da vida. Ele não estava preocupado com outro mundo senão este, e pretendia tornar esta vida possível de ser vivida através da criação de condições para a felicidade plena.  As boas lembranças, cultivadas com a gentileza,  a generosidade e contemplação são também prazeres que tornam a vida feliz.
Epicuro tinha uma ampla propriedade em Atenas, com um belo jardim, onde seus discípulos se reuniam para assistir suas aulas.  A fama deste filósofo, reconhecidamente gentil, generoso e afetuoso como todos que o procuravam, atraiu discípulos de todas as partes em busca de um remédio para os sofrimentos da vida. Na entrada da propriedade estava a seguinte inscrição “Hóspede, aqui serás feliz.”  A filosofia suave e tranquila de Epicuro atravessou os séculos e permanece viva e atual. Nietzsche, em uma de suas obras, o chamou de “esse Deus dos jardins”.

-Alfredo Carneiro-

Wittgenstein, o filósofo que matou a filosofia

200px Ludwig Wittgenstein 1910
Muitos consideram a genialidade de Wittgenstein comparada a de Einstein. Investigou os limites da linguagem e afirmou: "Se queres saber o significado de uma palavra, não procure no dicionário. Pergunte para quem a disse."
A vida do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein foi tão intensa quanto sua filosofia. Filho de Karl Wittgenstein, na época um dos industriais mais  poderosos da Europa, renegou sua herança milionária, pois tanto dinheiro poderia atrapalhar seus pensamentos.  Era exageradamente honesto, ingênuo, agressivo e apaixonado pela filosofia, tanto que qualquer um que não a valorizasse era solenemente desprezado como alguém de espírito inferior.
Alistou-se como oficial na primeira guerra mundial e participou de várias batalhas, ganhando várias condecorações por bravura.  Recusou o chamado de recuar e abandonar seus soldados e foi feito prisioneiro. Em sua mochila de soldado estava o rascunho de uma das mais importantes obras da filosofia analítica: o Tractatus Lógico Philosophicus. Sobreviveu à guerra e trabalhou com professor de escola primária,  jardineiro e mestre de obras, apesar de já ser reconhecido como um dos maiores filósofos do século XX. Sua irmã Margaret, com a intenção de dar um emprego ao seu “irmão maluco”,  e conhecendo suas assombrosas habilidades em lógica e matemática, o contratou para construir uma casa. Wittgenstein  se dedicou obsessivamente (como de costume) à construção e criou uma casa com estilo modernista anti decorativo que se tornou uma referência da arquitetura moderna.
Com a ajuda de seu mestre, Bertrand Russell, tornou-se professor em Cambridge e travou debates com Alan Turing, um dos maiores matemáticos do século XX e um dos pais da computação.  Durante a segunda guerra, se ofereceu para trabalhar como servente de hospital. Depois da guerra, se dedicou à conclusão do livro Investigações Filosóficas, que é também uma crítica ao seu primeiro livro, pois ninguém poderia superar Wittgenstein, a não ser ele mesmo.  Posteriormente abandonou a vida acadêmica, pois achava que aquela não era a vida de um verdadeiro filósofo.
Enquanto que no Tractatus Lógico Philosophicus ele busca a essência da linguagem,  no Investigações Filosóficas ele afirma que a linguagem varia de significado de acordo com os contextos, não possuindo essência mas apenas “jogos de linguagem”, o que tornaria impossível qualquer busca pela verdade. Ele conclui então que a filosofia não seria mais possível após essa descoberta.  Morreu de câncer aos 62 anos, seu último recado para seus amigos foi: “diga-lhes que tive uma vida feliz”.

-Alfredo Carneiro-

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Einstein

Albert Einstein, físico alemão, pai da teoria da relatividade

Fernando Pessoa


Notas sobre metafísica



Podemos tematizar como metafísica a filosofia que investiga os princípios e causas suprassensíveis (transcendentes, inteligíveis) da existência, como por exemplo a alma, as ideias platônicas (que são princípios transcendentes de determinação da matéria) e Deus (ou a ideia do Uno, do demiurgo...). Os primeiros filósofos, os pré-socráticos (ou mais apropriadamente os “filósofos da natureza”), começaram uma investigação cosmológica baseada em observações e análises racionais sobre a origem e a realidade do mundo. Sua importância, além desse primeiro passo da passagem do mito ao logos, consiste em algumas contribuições para a fundação dos escritos metafísicos por excelência de Platão (Parmênides - a realidade além da aparência, a impossibilidade do não-ser e do movimento. Heráclito – uno/logos/fogo, realidade como eterno devir, entre outros). Portanto, pode-se dizer que as primeiras contribuições surgiram com os filósofos da natureza, mas que essa disciplina como a definimos hoje foi iniciada no pensamento filosófico com os diálogos de Platão.

A metafísica se preocupa com tipos de entes que excedem o sensível porque se propõe a estudar o sentido da existência por meio de princípios que vão além da natureza, uma busca por entes eternos e imutáveis. Esse “tipo de ente” obviamente não pode ser encontrado no mundo sensível do devir. É tarefa da metafísica justificar racionalmente a existência de tais seres que fundamentariam a nossa realidade.


O desenvolvimento da metafísica foi gradual porque os chamados primeiros filósofos - aqueles que começaram a responder com argumentos racionais aos questionamentos sobre a origem do mundo, das coisas e sobre a composição da realidade -  ainda “ficaram na natureza”. A explicação para a composição da realidade estava na physis, sempre em algum elemento da natureza que eles pudessem justificar como sendo o fundamento de todas as coisas. A natureza era explicada por si mesma, como sendo causa e princípio de si mesma. E mesmo que alguns deles tenham buscado elementos não tão “palpáveis”, esses elementos não tinham a característica do suprassensível, aquilo que está além da física. O infinito de Anaximandro, por exemplo, apesar de parecer um ente metafísico, é uma explicação da natureza da matéria. No entanto, alguns desses filósofos contribuíram com problemas que foram retomados por Platão e Aristóteles, sendo redefinidos por eles com respostas fundamentadas em causas suprassensíveis. O problema da identidade na diversidade, por exemplo, foi analisado por Platão, que nos ofereceu o argumento de que há as ideias universais, e que os seres sensíveis e particulares participam dessas ideias, adquirindo assim suas características.


Apesar de o nome “metafísica” ter sido dado aos escritos de Aristóteles sobre sua “filosofia primeira” (e embora Aristóteles tenha sido um dos maiores filósofos da área), foi Platão mesmo que iniciou o tipo de pensamento característico do que hoje conhecemos como metafísica. Afinal, Platão fundamentou todo um sistema em uma realidade completamente inteligível e transcendente que seria “mais real”  que o mundo sensível, demonstrando racionalmente a existência de entes completamente abstratos (não sei se essa é uma boa palavra), as ideias universais, além de propor a existência do demiurgo (o questionamento sobre um ser suprassensível que tenha de alguma forma dado origem ao mundo material é uma das características da metafísica assumidas pela tradição filosófica). 
-Anita Morgensztern-

O julgamento de Sócrates

Apologia de socrates, atenas, defesa de socrates
Ao receber a sentença de morte, Sócrates declarou: "Já é hora de partir, eu para morrer e vocês, para viver. Quem vai para melhor sorte, isso é segredo, exceto para Deus."
O livro Apologia de Sócrates, de Platão, é um relato da defesa de Sócrates perante o tribunal de Atenas. Ele era acusado de não aceitar os deuses da cidade, introduzir novos deuses e corromper a juventude.  A acusação foi feita por Anito, Meleto e Licon, representantes das classes dos políticos, poetas e oradores da cidade.  Sócrates refutou cada uma dessas acusações e mostrou que seus acusadores  não sabiam o que estavam falando.  Mesmo assim, Sócrates foi condenado à morte pelos representantes da democracia Ateniense. Este evento aconteceu por volta de 400 a.C.
Durante o julgamento, Sócrates manteve sua dignidade e tranquilidade, dizendo que aceitaria a condenação à morte, mas, caso vivesse, não deixaria de fazer o que sempre fez: buscar a verdade e destruir a ilusão daqueles que se achavam sábios.  Para ele, calar a filosofia era calar a própria vida. Por conta disso, Sócrates foi condenado a beber um veneno chamado cicuta, pois a maioria dos jurados eram desafetos que outrora foram incomodados ou desmascarados por ele.
Apologia de Sócrates é uma das mais belas obras filosóficas da antiguidade, e relata a grandeza de um sábio que enfrenta a morte com serenidade. Durante todo o julgamento, fica claro que Sócrates não está realmente preocupado com sua defesa ou sua vida, mas apenas com a verdade. Ele já sabia que iria morrer, pois sua voz interior, que sempre lhe acompanhou, se calou no dia que ele saiu de sua casa para o julgamento, e isso significava que sua missão chegara ao fim. Ao receber a sentença de morte, Sócrates declarou: “Já é hora de partir, eu para morrer e vocês, para viver. Quem vai para melhor sorte, isso é segredo, exceto para Deus.” Depois da sua morte, seu discípulo Platão condenou a democracia, pois esse julgamento lhe mostrou que ela – a democracia –  poderia calar a verdade tanto quanto a tirania.

-Alfredo Carneiro-