quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Nota sobre a transvaloração de todos os valores



A transvaloração é uma questão ética complicada. O Ethos pode ser encarado como um movimento circular, em que há a cultura e os valores passados como herança, mantidos pelas novas gerações que, além de os manter também os questionam, o que provoca mudanças que serão depois passadas como herança, iniciando-se outro ciclo de propagação, manutenção e mudança do ethos. Nós sabemos que os valores culturais têm mudado muito de geração em geração, mas uma transvaloração de todos os valores me parece uma vontade de mudança muito abrupta no ciclo natural que as culturas seguem. No entanto, acho que ela já está ocorrendo, gradualmente, em certos sentidos. Entendo essa transvaloração como um guia teleológico de como devemos nos ver em relação à vida. Me parece mais uma mudança de atitude, que, claro, envolve valores enraizados na cultura ocidental há milênios.  Para Nietzsche, o homem moderno perdeu o contato consigo mesmo, com seus instintos, com a vida em si, valorizando atributos de fraqueza, “coitadice”, transformando instintos naturais em fonte de sofrimento, medo, enaltecendo a martírio, o castigo, a purificação. É essa mudança “mental” que, segundo entendo, precisamos fazer para não nos esquecermos da vida e para que sejamos senhores de nós mesmos.  

-Anita-

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Nietzche

“São para mim desagradáveis as pessoas nas quais todo pendor natural se transforma em doença, em algo deformante e ignominioso – elas nos induziram a crer que os pendores e impulsos do ser humano são maus; elas são a causa de  nossa grande injustiça para com nossa natureza.”

sábado, 10 de agosto de 2013

A metafísica do Admirável Mundo Novo



O livro O admirável mundo novo conta uma história de ficção científica em que a sociedade se divide em classes sociais pré-estabelecidas geneticamente. A engenharia genética é tão extrema que as pessoas já nascem predispostas a gostar das determinações de seu grupo social. Isso além do extremo condicionamento por que passam as crianças e os jovens, para que não queiram nunca reivindicar nada além do que lhes é permitido dentro de sua “casta”. Quem nasce para trabalhar nas fábricas é modificado geneticamente para ser incapaz e condicionado a gostar de suas tarefas. A droga “soma” traz o alívio e a felicidade alienantes de que as pessoas precisam para não pensar profundamente na vida e nas bases constitutivas da sociedade.

Há inúmeras leituras possíveis desta grande obra. Podemos discutir as consequências e a ética da engenharia genética, da manipulação de embriões, do condicionamento por que passamos por meio da mídia e da cultura, da estrutura social em que vivemos e das nossas fugas da realidade. No entanto, quero discutir o aspecto metafísico da concepção de ser humano que a obra traz.

O que é o ser humano? Existe uma essência humana? Há vários posicionamentos sobre essas perguntas. Segundo Platão, o ser humano, assim como todas as outras classes de seres, tem uma essência que lhe dá a “forma” de ser humano. Essa essência existiria no Mundo das Ideias, antes de a pessoa nascer. O demiurgo (espécie de deus/organizador platônico dos entes) daria forma à matéria através da contemplação desses arquétipos/essências. Já o existencialismo afirma que “a existência precede a essência”, ou seja, somos nós que escolhemos o que queremos ser, como reagimos ao mundo à nossa volta. O passado não nos determina: sempre posso mudar e o futuro está em aberto. Não existe uma essência humana; nós nos construímos a nós mesmos. Em semelhança à teoria de Platão, as principais religiões monoteístas defendem a ideia de que temos um destino – tudo é providência divina. E o que o mundo geneticamente predeterminado de Aldous Huxley quer criticar nesse aspecto?

O ideal de manipulação das massas é que as pessoas tenham essências pré-determinadas e que seu condicionamento as leve a crer que estão tendo a melhor vida possível. Levando esse conceito ao máximo, Huxley problematiza a nossa ideia do que nos forma. Engenharia genética + condicionamento equivale, hoje em dia, às nossas características e inclinações inatas + condicionamento religioso/midiático/cultural.  Temos uma essência determinada ou podemos mudar? Na obra de Huxley, há uma ilha destinada a quem questiona demais e não se adapta à ideologia da sociedade no Mundo Novo. A intenção dos “soberanos” é que as pessoas sejam determinadas a cumprir seus papeis de modo a não alterar a estrutura da sociedade. O mundo é dado assim como é - e é bom. E o que fazer com quem se destaca e pensa por conta própria? São mandados para uma ilha para não contaminar os outros. O ser humano é um animal social, como disse Aristóteles. O poder de uma ideia, de um questionamento, de uma semente diferente da que é sempre plantada em nossa mente pode levar a modificações no ethos de uma cultura.

O que concluir da tremenda ilustração que a história de Huxley nos traz? A minha interpretação tem um viés mais existencialista. Penso que, apesar de que nascemos com algumas características e em determinada cultura e família (o que Sartre chama de facticidade), nós somos livres para construir nossa própria existência e para escolher como reagir ao que nos acontece. Os homens do Admirável Mundo Novo nascem quase que completamente determinados e crescem condicionados, mas, mesmo assim, alguns conseguem se libertar das garras da sociedade em que vivem. Nós temos o mesmo “poder”. Não é fácil, mas é possível que cada um de nós crie para si um admirável mundo novo.

Aqui vai o link para uma ótima análise do livro, do amigo Alfredo Carneiro: http://www.netmundi.org/pensamentos/2013/01/3502/


-Anita Morgensztern-

Nietzsche


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

As éticas consequencialistas


   

   As éticas consequencialistas, como o utilitarismo, são sistemas teleológicos, ou seja, têm o fim como norteador de nossas ações. O que devemos considerar, como sujeitos morais, antes de agir são as consequências provocadas por nossas ações. Para isso, usando como exemplo a ética utilitarista, temos que estabelecer qual bem maior o homem precisa alcançar. Para o hedonismo, esse bem era o prazer. Para as éticas consequencialistas mais contemporâneas, esse bem é a felicidade. Estabelecido esse valor, o homem deveria tentar maximizá-lo e estabelecer seus objetivos em torno dessa supervalorização. Por exemplo, se priorizamos uma vida de bem-estar como uma vida feliz, em geral, nossas ações devem estar de acordo com a maximização desse bem-estar. Conforme essa teoria, se aplicada à nossa vida atual, as nossas escolhas de trabalho, companheiros, educação dos filhos etc devem estar voltadas ao alcance dessa felicidade - que, é preciso notar, deve ser a felicidade do maior número de pessoas afetadas pela ação. Portanto, se tenho um “problema moral” com minha família, precisaria pensar na escolha que tentasse beneficiar a todos. Por exemplo, se recebo uma oferta de emprego que me traria muito dinheiro e conforto para os meus filhos mas não me proporcionaria muito tempo para cuidar deles, precisaria levar em conta qual decisão nos faria a todos mais felizes, qual consequência se encaixaria melhor nesse objetivo.

Numa primeira análise pode parecer que as éticas consequencialistas são egoístas mesmo. Promover a felicidade (ou prazer, ou bem-estar) como valor supremo, o bem em si, pode ser considerada uma característica que visa à exaltação do indivíduo e seus desejos pessoais. Fica parecendo que devemos pensar “se isso me faz feliz, tenho a obrigação de fazê-lo”.
Ocorre que uma das três ideias principais das éticas consequencialistas é a maximização do valor. Quanto mais desse valor mais alto tivermos no mundo, melhor. Ou seja, minhas ações não visam apenas a minha felicidade pessoal; o meu dever como agente moral é agir de modo que a minha ação leve a felicidade ao maior número de pessoas afetadas por ela. Outra característica do utilitarismo é a prevenção ou diminuição da infelicidade, o que, se levado também à maximização, denota uma preocupação com o bem-estar social geral.  Acho que isso indica sim um certo altruísmo, ou ao menos tira essa impressão inicial de egoísmo e individualismo que as éticas consequencialistas podem nos passar.

A crítica pode ser com relação ao famoso “os fins justificam os meios”. Mesmo que para promover “a felicidade geral na nação”, ter como guia de uma ação apenas as suas consequências pode levar o homem a desconsiderar completamente os meios de que precisa para atingir seu ideal.

-Anita-