domingo, 4 de agosto de 2013

Michel de Montaigne, o primeiro blogueiro

Os Ensaios, principal obra do filósofo francês Michel de Montaigne, foi submetida à Inquisição Católica e aprovada para publicação. Mas a Inquisição não percebeu as sutilezas deste grande filósofo.
Os Ensaios, principal obra do filósofo francês Michel de Montaigne, foi submetida à Inquisição Católica e aprovada para publicação. Mas a Inquisição não percebeu as sutilezas deste grande filósofo.
A principal obra de Michel de Montaigne(1533-1592), Os Ensaios, foi publicada em 1580. Nesta época, a Igreja Católica exercia censura sobre todos os livros a serem publicados. Sendo Montaigne um nobre francês, envolvido com política, submeteu espontaneamente seu livro aos censores da Igreja.
Montaigne se dizia cristão, mas adotava o relativismo cultural e fez, em sua obra, várias críticas aos costumes da tradição cristã, algumas muito severas. No entanto, entre um parágrafo e outro, ele afirmava coisas do tipo: “Os esforços de Sócrates foram inúteis, pois ele não chegou a conhecer Nosso Senhor Jesus”. O pensamento de Montaigne era difícil de captar e seu estilo parecia contraditório. Mas ele claramente incentivava o cristianismo.
Com isso, sua obra foi aprovada pela Inquisição. Montaigne, de fato, incentivava a aceitação da tradição cristã, não porque concordava com ela, mas por acreditar que devido à impossibilidade de atingir qualquer verdade, as pessoas deveriam se refugiar em alguma tradição. E o cristianismo era sua tradição mais próxima. Mas este nobre francês não via problema algum no fato dos outros povos adotarem outras religiões e tradições, uma vez que nenhuma delas, nem o cristianismo, têm verdade alguma, mas apenas utilidade social. Assim pensava Montaigne e esta foi a sutileza que a Inquisição não captou.
Seu livro é considerado uma das grandes obras da filosofia moderna. Os vários filósofos que avaliaram sua obra consideram Montaigne um cético e relativista cultural, pois ele afirma que o conhecimento humano não é possível. Escreveu em uma das vigas de seu escritório: “A única certeza é que de nada se tem certeza”. Suas ideias estavam escondidas nas sutilezas de seus textos contraditórios, como um código.
Sua obra é de fácil leitura e muito divertida. Montaigne fala de tudo, desde flores, animais, mulheres, traições e até de seu próprio pênis. Alguns leitores contemporâneos, em tom de brincadeira, dizem que este filósofo francês foi o “primeiro blogueiro”.

Heidegger


Moral e ética

Moral e ética
O dilema moral surge quando devemos fazer o que é certo no entanto não queremos fazer o que é certo. Um exemplo é estar atrasado para uma festa e, no meio do caminho, encontrar alguém que precise da nossa ajuda (um acidente, por exemplo). Não queremos perder a festa, mas devemos ajudar quem precisa, esta é uma escolha moral.
A ética é o conjunto de valores, hábitos, normas e ações difundidos por uma determinada sociedadeou grupo de pessoas, enquanto que a moral é a prática individual influenciada por esse conjunto de valores éticos. Ética e moral se complementam, uma vez que nossas decisões que envolvem outras pessoas são também influenciadas pelos valores éticos que recebemos de nossa família,  da sociedade, da comunidade ou do grupo que fazemos parte.
A palavra ética é oriunda do grego ethos, que é o espaço simbólico construído pelas práticas de um povo. O ethosnasce da interação dos indivíduos visando o que é bom e certo para a coletividade, e o produto dessa interação é transmitido às futuras gerações. É, portanto, uma construção social e histórica. É através da prática do que é considerado correto que  um sujeito se integra ao ethos de seu povo e por conseguinte se integra às esferas sociais.  Este indivíduo só será aceito nas esferas sociais de seu grupo se ele se integrar, através de sua atitudes, ao seu ethos. Oethos é, portanto, o rosto de um povo. Um bom exemplo é o respeito que os japoneses têm para com o mais velhos, que são vistos como portadores de experiência e sabedoria.  Podemos dizer então que o respeito aos mais velhos é um valor ético do povo japonês, transmitido de geração em geração, e aquele que não demonstra respeito aos mais velhos tende a ser rejeitado nas esferas sociais (política, cultural e de convivência).
Um exemplo de valor ético é o respeito que os japoneses têm para com o mais velhos, que são vistos como portadores de experiência e sabedoria. Podemos dizer então que o respeito aos mais velhos é um valor ético do povo japonês, transmitido de geração em geração, e aquele que não demonstra respeito aos mais velhos tende a ser rejeitado nas esferas sociais (política, cultura e convivência).
A moral, por sua vez, é um confronto pessoal entre aquilo que somos e a aquilo que devemos ser. Devemos ser educados, não devemos roubar nem matar,  devemos ajudar o próximo na medida do possível. Esses valores nos são repassados através de uma ética (o ethos do grupo em que vivemos).  Toda ação moral pressupõe um conjunto de valores éticos que a direcionam. A ética é o conjunto desses princípios e a moral a prática individual desses princípios. O dilema moral surge quando devemos fazer o que é certo no entanto não queremos fazer o que é certo. Um exemplo é estar atrasado para uma festa e, no meio do caminho, encontrar alguém que precise  da nossa ajuda (um acidente, por exemplo). Não queremos perder a festa, mas devemos ajudar quem precisa, esta é uma escolha moral. Temos então que decidir o que fazer, e esta é uma decisão pessoal. A ética, então, tem a função de nos apoiar em nossas escolhas morais.
Mas na interação entre moral e ética não existe rigidez. Os valores éticos são uma referência sobre o que devemos fazer, e não uma lei absoluta. É o caso da mentira. Não devemos mentir, mas, e se para salvar uma vida tivermos de inventar uma mentira? Certamente não iremos pensar: “Não devo mentir, pois é errado. Então vou deixar essa pessoa morrer”.  Por isso, o filósofo grego Aristóteles disse que a ação moral exige a sabedoria de lidar com o imprevisto, para tal ele recomenda a prudência e a sagacidade.
Por fim, percebam que os valores éticos também se alteram com o tempo. Se em algum momento de sua vida você perceber que os valores éticos de nosso povo causam sofrimento, é o momento de fazer escolhas morais, de questionar, de criticar e apontar os erros. O jovem não deve perpetuar eternamente os valores éticos, mas renová-los sempre que os julgar injustos.
Autor do texto: Alfredo Carneiro  Fonte: www.netmundi.org/pensamentos

Nietzsche e o Eterno Devir: “Viva o melhor possível e, só então,morra.”



Trecho do livro A Cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom
Certa noite, sem conseguir dormir e precisando se animar um pouco, foi mexer nos livros da biblioteca. Não encontrou nada na sua área que pudesse, mesmo remotamente, aliviar sua situação, nada que dissesse como uma pessoa deveria viver, ou encontrar sentido nos dias de vida que ainda lhe restam. Viu então um exemplar bastante manuseado de Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche. Conhecia bem aquele livro: décadas antes, ele o tinha estudado muito quando escrevia uma artigo sobre a grande, mas não reconhecida, influência de Nietzsche sobre Freud.  AchavaZaratustra um livro corajoso, que, mais que qualquer outro, ensina como reverenciar e celebrar a vida. Sim, podia ser a resposta. Ansioso demais para ler com método, percorreu as páginas aleatoriamente e leu algumas linhas que estavam sublinhadas.
Entendeu que as palavras de Nietzsche significavam que era preciso escolher a sua vida – ele tinha de usufruí-la em vez de ser “usufruído” por ela. Em outras palavras, tinha de amar seu destino. E, acima de tudo, havia  a pergunta que Zaratustra sempre fazia  -se gostaríamos de repetir a mesma vida eternamente. Uma ideia curiosa e, quanto mais Julius pensava nela, mais seguro se sentia: a mensagem de Nietzsche para nós era viver de forma a querer a mesma vida sempre.
Continuou folheando as páginas e parou em dois trechos bem sublinhados com tinta rosa “Complete sua vida.”  ”Morra na hora certa.”
Isso mesmo. Viva o melhor possível e, só então, morra. Não deixe nada por viver. Julius comparava as ideias de Nietzsche a um teste de Rorschach, pois tinham tantos pontos de vista opostos que a conclusão dependia de quem lesse ou, no teste, de quem olhasse. Por mais que Zaratustra exaltasse, até glorificasse a solidão, por mais que exigisse o isolamento para poder pensar, ainda assim estava preocupado em amar e exaltar os outros, em ajudá-los a se aperfeiçoar e se exceder, com compartilhar com eles sua maturidade.
Colocou o livro de volta na estante, sentou-se no escuro e ficou olhando pela janela o farol dos carros, pensando nas palavras de Nietzsche. Após alguns minutos, conseguiu: descobriu o que fazer e como passar seu último ano de vida. Iria viver exatamente do mesmo jeito que o ano anterior e o antes do anterior. Gostava de ser terapeuta, gostava de se ligar a outras pessoas e ajudar a trazer algo a vida.

Jung

Carl Gustav Jung, Psiquiatra suíço

sábado, 3 de agosto de 2013

COMO A CIÊNCIA SE ESTABELECE E EVOLUI EM SEU PROCESSO

COMO A CIÊNCIA SE ESTABELECE E EVOLUI EM SEU PROCESSO

ANITA MORGENSZTERN


Resumo:
O presente artigo pretende apresentar a visão de Thomas Kuhn sobre o progresso científico baseado em seu livro A estrutura das revoluções científicas. Para tal, trata-se de conceitos-chave como ciência normal, crise, ciência extraordinária, paradigma e revolução científica. A partir da investigação sobre a abordagem histórica de análise científica Kuhniana, aborda-se o processo de evolução das ciências – no que consiste a prática da ciência, como evolui e como ocorrem as mudanças de um sistema científico a outro (mudança de paradigmas).

Palavras-chave: Revolução científica. Paradigma. Abordagem histórica. Thomas Kuhn

1. Introdução
1.1 Filosofia da ciência

O movimento filosófico dominante do início do século XX nos países de língua inglesa foi o positivismo lógico, que se originou com o Círculo de Viena, que, na área da filosofia da ciência, era formado por filósofos como Rudolf Carnap, Carl Hempel e Moritz Schlick. Fugindo do nazismo, a maioria dos neopositivistas emigrou aos Estados Unidos, exercendo uma grande influência na vertente filosófica do país até meados da década de 1960. Esse grupo fez ressurgir uma visão empirista/positivista da filosofia da ciência, dividindo os tipos de conhecimentos entre analítico e empírico. O que não fosse nem um nem outro, como a metafísica, não seria considerado conhecimento.

O objetivo do empirismo lógico era analisar a estrutura das teorias científicas, saber como elas funcionam, delimitar o que era conhecimento científico e reconstituir a linguagem científica para que esta fosse a mais precisa possível. O início do século XX assistiu a grandes descobertas científicas, principalmente na área da física, o que provocou grande discussão filosófica sobre a questão do que poderia ser considerado como verdadeiro conhecimento científico. Embora tivessem a ciência como objeto de estudo, a análise sincrônica das ciências feita pelos neopositivistas não considerava a evolução científica em geral, mas sim o seu funcionamento lógico. Na segunda metade do século XX, porém, filósofos como Thomas Kuhn colocaram em cena uma investigação histórica da ciência, com o objetivo de analisar não apenas o produto das teorias científicas, como também a própria atividade científica como um todo - seus problemas, desenvolvimento e evolução. Essa abordagem histórica levou os filósofos da ciência a descobrirem e investigarem novos tipos de problemas, para além da estrutura das teorias e modelos científicos. Tais problemas incluem a natureza da evolução científica (cumulativa x não-cumulativa), como operam as tradições de pesquisa, como são tratados os problemas científicos na prática (e como o foram ao longo da história), e assim por diante. Thomas Kuhn, filósofo cuja obra será abordada no presente artigo, é um dos principais contribuintes da abordagem histórica da filosofia da ciência.

2. Thomas Kuhn e A estrutura das revoluções científicas

Thomas Kuhn, Graduado em física pela Universidade Harvard e filósofo atuante, principalmente nas décadas de 1960 a 1980, foi historiador da ciência e usou seu material de pesquisa em suas análises e teorias filosóficas. O tema central de seus estudos é a investigação da natureza da ciência, a evolução científica e a mudança conceitual de teorias. A reflexão do filósofo é sempre baseada em casos empíricos notórios, que exemplificam ao mesmo tempo em que servem de fundamento para a explicação de como as ciências funcionam e progridem. Sua filosofia se opõe à dos filósofos do Círculo de Viena.

O livro a ser analisado neste artigo, A estrutura das revoluções científicas, é composto de prefácio, introdução e doze capítulos, em que ele defende sua argumentação sobre a evolução científica feita por meio do que ele chama de revoluções científicas, conceito a ser esclarecido junto com outros conceitos-chave ao longo do artigo. Além dos doze capítulos, a edição de 1969 traz um posfácio de sete capítulos em que o autor reforça seus argumentos a partir de críticas feitas por outros filósofos sobre algumas de suas ideias.

O interesse principal de Thomas Kuhn ao longo da obra é chegar à estrutura das revoluções científicas, períodos de grande movimentação científica em que ideias e teorias já existentes são substituídas radicalmente por novas teorias, como ocorreu com a revolução copernicana ou com a teoria da evolução de Darwin.

3. Alguns exemplos de casos empíricos analisados em A estrutura das revoluções científicas

A abordagem histórica de Thomas Kuhn baseia-se principalmente na análise de casos empíricos para a formulação de como a pesquisa científica em geral funciona e como ocorrem as substituições de uma teoria por outra. Para ter-se uma ideia desse tipo de análise, cita-se neste item alguns dos exemplos mais notórios trazidos por Kuhn para ilustrar sua argumentação.

Os exemplos mais óbvios de revoluções científicas são aqueles episódios famosos do desenvolvimento científico que, no passado, foram frequentemente rotulados de revoluções. (KUHN, 1991, p.25)

Eis alguns exemplos:
A revolução copernicana: Um dos primeiros passos para o desenvolvimento da visão moderna e contemporânea de ciência foi a substituição da teoria geocêntrica, que afirmava que a Terra era o centro do sistema solar (e todos os planetas giravam em torno de nós), pela teoria heliocêntrica, segundo a qual os planetas giram em torno do sol. A visão ptolomaica havia sido predominante por 1.800 anos quando Copérnico sugeriu que o sol era o centro. A mudança resolveu problemas de cálculos que os astrônomos tinham há séculos.
A natureza da luz: Isaac Newton argumentava que a luz seria formada por partículas que se refletem sobre uma superfície. Sua teoria ficou conhecida como “modelo corpuscular da luz”. Em contraposição a esse modelo surgiu o “modelo ondulatório” de Huyghens, segundo o qual a luz é composta por ondas. Albert Einstein defendeu a tese de que um feixe de luz são unidades de energia, os fótons. Hoje em dia pode-se considerar a luz como onda ou partícula.
A teoria da relatividade: A teoria da relatividade de Einstein revolucionou as ideias fundamentais da Física clássica de Isaac Newton. Segundo Einstein, o espaço e o tempo não são grandezas absolutas, independentes dos fenômenos, mas sim relativas, dependentes do observador.
Teoria da evolução das espécies: Teoria segundo a qual as espécies se originam por meio de um processo de evolução que ocorre através da luta pela sobrevivência e da seleção natural. Essa teoria é contrária à visão criacionista e gerou (e ainda gera) um intenso debate científico.

4. Paradigma

Como visto no item anterior, Kuhn mostra que não se pode abrir mão dos casos empíricos científicos da história para se analisar completamente a ciência e sua evolução.  Esses exemplos ilustram um conceito central para a filosofia kuhniana da ciência: o paradigma. Paradigmas são tradições de pesquisa cuja aceitação é pré-requisito para se fazer ciência. Um paradigma científico é composto por uma teoria, suas suposições e problemas específicos já resolvidos pelos pressupostos daquela teoria, tudo isso constando nos livros e manuais científicos daquele paradigma específico aceito pelos membros de uma determinada comunidade científica. Mas um paradigma é mais que uma teoria aceita por um grupo de cientistas. Trata-se da aceitação de quais problemas são considerados, como a pesquisa deve ser conduzida no futuro, quais métodos são apropriados para se tratar os problemas e quais soluções são aceitáveis dentro da teoria da tradição de pesquisa. É um compartilhamento de crenças, suposições e valores.
[Os paradigmas] proporcionam modelos dos quais brotam as tradições coerentes e específicas da pesquisa científica. São essas tradições que o historiador descreve com rubricas como: ‘Astronomia Ptolomaica’ (ou ‘Copernicana’), ‘Dinâmica Aristotélica’ (ou ‘Newtoniana’)... (KUHN, 1991, p.30)
Os paradigmas, segundo Kuhn, se fixam e são aceitos por trazerem soluções mais aceitáveis aos problemas considerados graves em uma determinada época. Depois de fixados, processo que será esclarecido mais adiante, os paradigmas impõem limites à pesquisa, formando como que uma “redoma protetora” dentro da qual os cientistas exercem o que o filósofo chama de ciência normal.

5. Ciência normal

“...ciência normal, isto é, (...) a gênese e a continuação de uma tradição de pesquisa determinada” (KUHN, 1991, p.31)
A ciência normal, ou seja, as atividades de pesquisa “do dia-a-dia”, funcionam, para Kuhn, como solucionadoras de quebra-cabeças. Isso quer dizer que o trabalho do cientista é resolver pequenos problemas fornecidos pelo próprio paradigma e cuja solução se encaixe dentro dos limites desse paradigma. A ciência normal seria, como diz o filósofo, uma “atividade de limpeza”, em que o cientista vai limpando (eliminando) os pequenos “quebra-cabeças” que surgem em seu trabalho. “O desafio apresentado pelo quebra-cabeça constitui uma parte importante da motivação do cientista para o trabalho” (KUHN, 1991, p.59). O papel do quebra-cabeça é também testar a capacidade científica de resolução de problemas. Faz parte do trabalho do pesquisador. Por isso, para ser aceito e caracterizado como um problema a ser solucionado em uma tradição de pesquisa, o “quebra-cabeça” precisa “obedecer a regras que limitam tanto a natureza das soluções aceitáveis como os passos necessários para obtê-las.” (KUHN, 1991, p.61). Ou seja, ele tem de estar dentro dos limites impostos pelo paradigma. Kuhn faz ainda uma comparação desse tipo de problema a um jogo de xadrez. O jogador pode pensar em algumas soluções e movimentos para avançar e se livrar de um ataque, mas apenas dentro das regras do jogo. Não pode mover a torre na diagonal ou o bispo na vertical. Isso quer dizer que é preciso haver uma adesão aos princípios conceituais, metodológicos e instrumentais do paradigma quando o cientista tenta resolver um quebra-cabeça.  Isso tudo se dá sem a intenção por parte do pesquisador em buscar novos tipos de problema que não estejam inseridos naquela tradição de pesquisa. Problemas assim muitas vezes são ignorados pelo cientista, que está sempre preocupado em articular teorias e fenômenos de seu próprio campo de estudo. Se um pesquisador encontra um problema que está em conflito com seu paradigma, ele pode muito bem supor que, por exemplo, sua técnica de experimentação esteja com algum problema, e não que o paradigma como um todo esteja errado. Nesse sentido, a ciência normal se mostra como uma atividade extremamente conservadora.

O conservadorismo observado na ciência normal, argumenta Kuhn, é essencial para a atividade científica cotidiana, que é cumulativa e visa manter a estabilidade da pesquisa. Pode-se dizer que um dos objetivos da ciência normal seja manter e aperfeiçoar o paradigma, ou seja, conformar os fatos significativos aos limites do paradigma em questão. Ademais, o foco em um grupo específico de problemas faz com que os cientistas investiguem um determinado aspecto da natureza “com uma profundidade e de maneira tão detalhada que de outro modo seriam inimagináveis.” (KUHN, 1991, pg.45) Consequentemente, os cientistas em seu trabalho normal não estão interessados em refutar a própria teoria que escolheram pesquisar.

(...) esse empreendimento parece ser uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se dentro dos limites pré-estabelecidos e relativamente inflexíveis fornecidos pelo paradigma. A ciência normal não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de fenômeno. (KUHN, 1991, p.45)

Outro aspecto característico da ciência normal é o da iniciação do novo pesquisador. Somente depois de várias experiências científicas de aprendizagem é que o estudante vai passar a ver os fenômenos com olhos de pesquisador, enxergando o que o cientista enxerga e respondendo como o cientista responde. A ciência normal requer treinamento.

Em suma, podemos caracterizar a ciência normal, a partir dos conceitos descritos acima, como a atividade científica conservadora e cumulativa - durando geralmente décadas ou até mesmo séculos - que se dá dentro de uma tradição de pesquisa, e que se ocupa principalmente com três classes de problemas, a saber: “determinação do fato significativo, harmonização dos fatos com a teoria e articulação da teoria”. (KUHN, 1991, p.55). O paradigma fornece ao cientista os instrumentos (teorias, conceitos, valores) para estabelecer o que sejam fatos significativos a serem analisados. Na sequência, o pesquisador tenta harmonizar esses fatos ou problemas com a teoria (no caso dos problemas temos o conceito de “quebra-cabeça”), e depois articula a teoria com as soluções admitidas dentro do paradigma a fim de, entre outras coisas, aperfeiçoá-lo.

6. Ciência extraordinária
O que acontece quando um determinado problema se torna recorrente e os cientistas não conseguem resolvê-lo dentro do paradigma? Segundo Kuhn, começa o período de ciência extraordinária. Analisemos os conceitos envolvidos nesse período científico.
Quando o cientista se depara com um problema, podem acontecer três coisas: 1) O problema é resolvido como um quebra-cabeça dentro do paradigma, com uma solução que se encaixa na tradição de pesquisa e é satisfatória ao aperfeiçoamento da teoria. 2) O problema é visto como não solucionável para o estado em que a ciência se encontra (ou é simplesmente descartado como não sendo relevante) e é deixado de lado até que uma geração futura disponha dos meios para resolvê-lo. 3) Começam a surgir problemas relacionados ao problema central, que se torna recorrente na prática científica e ocupa boa parte da pesquisa. Quando este último ocorre, temos anomalias, ou lacunas de conhecimento, que podem levar a uma crise no paradigma.
As crises ocorrem quando os problemas colocam em xeque a validade do paradigma. Nesse período de crise, que Kuhn chama de ciência extraordinária, há insegurança e instabilidade teórica, e geralmente vão surgindo tentativas de paradigmas rivais com o propósito de substituir aquele que está em crise. Na ciência extraordinária, há um paradigma desestruturado e outros que ainda não se estabeleceram como teorias substituintes.

Quando os cientistas de uma determinada tradição não conseguem resolver os problemas recorrentes como um quebra-cabeça, temos a crise e a ciência extraordinária. A anomalia passa a ser reconhecida e os cientistas se voltam mais para as tentativas de resolvê-la do que para o resto de sua prática científica. O enfoque são os problemas e o resto da teoria também passa a ser questionado. Para Kuhn, a ciência extraordinária é também um período pré-paradigmático, já que há uma intensa pesquisa para o descobrimento de um paradigma estável, com novos conceitos e métodos, que responda aos problemas de maneira satisfatória.

A crise gera a proliferação de candidatas a paradigma e só acaba quando uma delas é aceita e adotada pela comunidade científica, já que a teoria “capenga” só não vale mais quando há uma alternativa viável para substituí-la.

O período durante o qual a luz era considerada ‘algumas vezes como uma onda e outras como uma partícula’ foi um período de crise – um período durante o qual algo não vai bem – e somente terminou com o desenvolvimento da Mecânica Ondulatória e com a compreensão de que a luz era entidade autônoma, diferente tanto das ondas como das partículas. (KUHN, 1991, p.149)

7. Revolução científica

Essas transformações de paradigmas da Óptica Física são revoluções científicas e a transição sucessiva de um paradigma a outro, por meio de uma revolução, é o padrão usual de desenvolvimento da ciência amadurecida. (KUHN, 1991, pg.32)

A ciência extraordinária que começa com a crise culmina na transição de um paradigma a outro, que pode gerar uma nova tradição de pesquisa de ciência normal. Esse processo de transição, diferentemente da prática apenas da ciência normal, não é cumulativo, mas sim uma construção por meio de novos princípios, valores, métodos e aplicações. A mudança de conceito sobre um problema dentro de um novo paradigma não é apenas uma mudança de interpretação. Segundo Kuhn, é como se o cientista passasse a trabalhar em um mundo diferente, já que com o paradigma muda também a visão dos cientistas, seus objetivos e o modo de trabalho dentro da nova tradição de pesquisa.

No capítulo 9 de A estrutura das revoluções científicas, Thomas Kuhn fala sobre essa mudança de perspectiva pela qual o cientista passa quando ocorre uma revolução científica e uma posterior mudança de paradigma. Os pesquisadores, com novos instrumentos e tentativas de construção de novas teorias, passam a olhar os mesmo objetos “em novas direções”. “Aquilo que antes da revolução aparece como um pato no mundo do cientista transforma-se posteriormente num coelho.” (KUHN, 1991, p.146).

Para explicar o impacto da mudança para o cientista, Kuhn faz uma analogia. Diz ele que enquanto um estudante vê linhas sobre um papel, o cartógrafo vê a representação de um terreno. Somente depois de muito treinamento o iniciante pode enxergar o mundo de seu trabalho científico pelas lentes de um pesquisador. Assim é quando ocorre uma revolução científica e mudança de paradigma. É como se o pesquisador tivesse que reaprender a olhar os mesmo fenômenos de antes, mas sob uma nova ótica, já que o mundo que ele estuda era determinado pela tradição à qual pertencia antes, quando ainda estava no paradigma de ciência normal anterior. Se a tradição muda, a percepção também precisa mudar e o cientista tem de ser reeducado dentro do novo paradigma, mais ou menos como um principiante. E aqui entra também o aspecto da incomensurabilidade. Para o próprio cientista, é como se os dois paradigmas, o “velho” e o “novo”, pertencessem a planetas diferentes.

Conclusão

O mundo científico muda bastante. Um breve estudo sobre a história da ciência já nos fornece material para sabermos que muitas teorias científicas mudaram radicalmente ao longo do tempo, o que modificou, consequentemente, o modo como entendemos os fenômenos que nos cercam. Mas como ocorrem essas mudanças? Há algum padrão segundo o qual as tradições de pesquisa mudam ao longo do tempo? Como explicar essas trocas tão radicais de visão?

Thomas Kuhn se empenhou no projeto de investigar como a ciência opera e evolui. Para isso, abriu mão da abordagem logicista e pegou para si a enorme tarefa de analisar historicamente os grandes eventos científicos da humanidade. Desse modo, analisando os fatos empíricos e as mudanças radicais de paradigma ao longo da história da ciência, Kuhn formulou sua teoria, segundo a qual a ciência evolui com períodos de ciência normal precedidos e sucedidos por revoluções científicas.

Kuhn traz uma ilustração no capítulo 9 de A estrutura das revoluções científicas, sobre a adaptação do cientista ao novo paradigma que ilustra bem a visão do autor sobre o processo de evolução das ciências. Em um experimento, a pessoa recebe óculos que invertem as imagens, colocando-as “de cabeça para baixo”. No início, há “desorientação extrema e crise pessoal” (como um momento de crise na ciência). Porém, com o passar do tempo, a pessoa vai se adaptando, aprendendo a enxergar o mundo em que tem a visão confusa (percepção da anomalia e tentativas de solução). Depois desse período de adaptação, os objetos passam a ser vistos de maneira “normal”, ou seja, o campo que cerca o sujeito foi modificado segundo sua nova visão (imposição de um novo paradigma e aprendizado por parte do cientista para que este possa trabalhar dentro do novo mundo que lhe é apresentado. O novo paradigma passa a ser a nova “ciência normal”).

O trabalho de Thomas Kuhn é um dos mais influentes da filosofia da ciência dos últimos 50 anos. A sua teoria das revoluções científicas (ciência normal – anomalias – crise – ciência extraordinária – revolução científica/mudança de paradigmas – ciência normal) se aplica com precisão à maioria dos eventos de evolução de um paradigma a outro. Uma das grandes novidades de Kuhn foi defender que a ciência evolui de forma fragmentada, que não se trata de um processo cumulativo de progresso. Essa visão e a obra do filósofo vêm servindo de base para discussões, principalmente para quem defende a análise histórica/empírica na investigação da filosofia da ciência e para quem argumenta em favor de um relativismo epistemológico científico.


Referências bibliográficas

DAYRELL, Eduardo. Mudar de Paradigma. Crítica na rede. 13/010/2008. Disponível em: http://criticanarede.com/kuhn.html. Acesso: 21 de abril de 2013.
KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1991.
OKASHA, Samir. Philosophy of Science: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2012.
UCB (Universidade Católica de Brasília). Filosofia da ciência. Conteúdo da disciplina on line. Brasília: UCB Virtual, S. D.
UCB (Universidade Católica de Brasília). História da filosofia contemporânea. Conteúdo da disciplina on line. Brasília: UCB Virtual, S. D.

Nietzsche

“Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?”

Nietzsche – Assim falou Zaratustra